Das muitas coisas que nunca entendi do seu planeta, uma delas é a amizade. O jeito como vocês se comportam em relação a isso, quais as regras, o que tenho que fazer em determinadas situações,são coisas que nunca entraram na minha cabeça.
Quando eu era criança não era fácil fazer novos amigos, talvez ainda tivesse muito ligado ao meu planeta de origem para entender vocês, ainda mais em versões pequenas e irritantes, mas, lembro de um amigo que fiz na primeira série, por vontade própria.
Era Setembro (ou novembro) e eu estava como sempre respondendo as minhas atividades esperando ansiosamente pela hora do recreio, quando de repente me deparo com uma pergunta, mais difícil do que os teoremas de Pitágoras, que vim a aprender anos mais tarde, a pergunta era a seguinte : " Quem é seu melhor amigo na escola ? E o que vocês fazem para se divertir", gelei quando li o questionamento, não que eu fosse uma criança que vivia pelos cantos sozinha sem nenhum contato com as outas crianças, longe disso, mas eu não sabia nem se tinha algum amigo, quanto mais quem era meu melhor amigo! E fui lá, perguntar a professora o que ela achava desse enigma de outro mundo, ela simplesmente mandou que eu escolhesse entre qualquer pessoa da sala , eu muito obediente analisei todas as opções, que não eram muitas, e nomeie a vítima, digo meu novo melhor amigo, cheguei perto dele e gritei " Oi criatura, agora você é o meu melhor amigo, do que nos gostamos de brincar?" e ai nasceu uma das amizades mais estranha que tive na vida. Estudei o resto do ano com esse meu melhor amigo, e continuei sem entender qual era a minha função nessa nova relação. O ano acabou, a criatura se mudou, trocou de colégio e deixou seu número de telefone, para que a amizade não morresse, trocávamos ligações pelo menos duas vezes ao ano.
Passou a segunda, terceira, quarta e quinta série, e sempre nas férias de junho e dezembro recebia a ligação da criatura, sempre fazíamos planos que nunca chegaram a se concretizar, sempre falávamos em ir um na casa do outro, em jogar playstation, trocar figurinhas do álbum do pokemon, cartões postais de Digimon, mas nunca os planos tornaram reais. Nunca mais vi a criatura, se o ver na rua hoje em dia não o reconheço, paramos de nos falar depois de um tempo, talvez a ficha tenha caído, de que escolher amigos aleatoriamente não é uma boa forma de começar uma amizade, mas, guardo na memória este que foi o meu primeiro contato com a relação de amizade humana.
Hoje, com quase vinte anos, ainda quebro a cabeça para entender melhor toda essa relação de amizade, tive alguns progressos, mas, continuo sentido aquele pavor que senti ao me deparar com aquela pergunta, há anos atrás. A cada novo amigo que faço, tudo isso fica menos claro na minha mente, volto a me perguntar o que tenho que fazer, como devo agir, me pergunto em quanto tempo a pessoa irá se cansar de mim, e em quanto tempo " as ligações de junho e dezembro" irão parar, e as vezes é até uma surpresa ver que elas não pararam ao longo do tempo, e que até aumentaram. Continuo sem entender muita coisa sobre isso, e acho que nunca vou desvendar esse segredo, mas, cada vez mais tenho certeza que os amigos são nossa [clichê] segunda família [/clichê], apesar dos pesares.

Um comentário:
Essa é uma boa forma das pessoas te conhecerem melhor, entrar no ''seu mundo'' como vc diz.. rs! Adorei esse seu começo de blog. Saiba que minhas ligações nao serão apenas junho-dezembro.. rs Quero sua amizade pra sempre!
Beijo, Rafa. :)
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